segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sua vida em tafetá

Nesses tempos de conversação à luz da História da Globo TV, um post sobre a onipresença de seu jornal matutino de espectro nacional, o Bom Dia Brasil, nas manhãs do cidadão brasileiro.
Primeiro, não sei se faz sentido receber bom dia de um pessoal que não me representa, eu, povo, rodela de suor debaixo do braço, cumprimentada por essa gente que, tal como os equipamentos, está congelada, para evitar sua deterioração, sob montanhas de ventos gélidos do ar-condicionado central.
Além disso, as pautas são direcionadas aos executivos (CEO, boba, a palavra correta é CEO) das grandes empresas, públicas ou privadas - o povão, meus buddy guys, saíram faz tempo, desde as 4 h da manhã, para poderem assistir de camarote o enguiço n. 114 do trem às 5h30min, mais precisamente (Às 7h30min, caso esses mesmos condenados ao salário-mínimo tenham reduzido o trem urbano ao pó, para onde tu voltarás, serão rotulados, chefes de família e proletários que são, de vândalos e, na sequência, serem convocados a realizarem uma revolução pacífica ou,se possível, nenhuma).
Ai, Globo, Globo, Globo. O seu mundo em tafetá não cabe dentro do povo; as suas produções com cara de comercial, até mesmo os telejornais, não reproduzem a riqueza de matizes da pobreza e deficiências nacionais. Suas repórteres bonitas, risonhas, teatrais, clones da Branca de Neve, assustadiças ao voo de uma muriçoca no estúdio não cabem dentro do meu orçamento diário, tampouco deveriam interromper meu delicioso café da manhã comprado na esquina.
Meu sonho de consumo para o telejornal brasileiro: o jornalista-tédio. Ele se procria livremente na Europa, em países como a França. Papelada na mão, corpo reclinado à frente, bancada invisível, são só ele, seu sono indisfarçável, camadas de notícias à sua frente rolando no teleprompter. Em um segundo ele boceja de modo incontrolável, ainda que sutil. Testemunhei isso e de início, estranhei - eram os anos de chumbo grosso da pasmaceira global falando nas veias. Mas tão logo entendi a configuração da cena - a abordagem-desleixo, ou melhor, do jornalismo-pelo-joranlismo, zero glamour, vi a ponta anárquica do iceberg impossível aqui.
Eu te amo, jornalista-sono. Vem morar, vem bocejar no Brasil. Rápido. Antes que o café da manhã esfrie.

domingo, 28 de abril de 2013

O Brasil tem preguiça com o Brasil - Sobre "Eu receberia ..."

Ontem tive a grata surpresa e pachorra de me sentar no sofá da sala e assistir a (parte) de um filme que perdi no cinema: "Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios", de Beto Brant e Renato Ciasca. O filme é inspirado no romance homônimo de Marçal Aquino. Devo admitir que, como a pachorra não foi suficiente, não assisti a tudo - na verdade, achei que o filme duraria umas três horas e saí da sala. De repente, o filme acabou. Loucuras à parte, até onde vi, o filme é visualmente bonito, muito bem interpretado, escrito, editado, com muito sexo, como brasileiro gosta. Mas ...
Mas, na época em que passava no cinema, os comentários dos leitores do único jornal de grande circulação da segunda maior cidade do país reclamavam que o filme era confuso, que a história dizia nada, "saí no meio". Muitos falavam da edição. Com toda a honestidade, eu achei a edição menos complicada do que a do "Amnésia", do Cristopher Nolan e, se bobear, qualquer um dos três Batmans que ele dirigiu é mais imbricado em termos de montagem do que "Eu receberia...". Daí me resta aquela dúvida: o que leva o Brasil, ou a elite da segunda maior cidade do país, a não aceitar a inovação desse filme, sua temática rural, sua ousadia dramatúrgica etc?
No meu entendimento, fosse um filme estrangeiro, as pessoas teriam mais paciência. Fosse um francês, todos tentariam entender a proposta. Vi o último do Ozon, "Dentro de casa", e entendi a proposta: mimetizar filmicamente o efeito do impacto de um  romance em seu leitor, mostrar em cinema os mecanismos de construção da narrativa romanesca. Complexo, não? Mas isso vai na tela suave, de modo até conservador, burocrático. Apesar da simplicidade da encenação, você tem de parar para pensar nessas ideias e na função fílmica da personagem daquele professor tolo, enredado pela trama de romance que construiu dentro de sua vida. Mas, ao sair da sessão, ninguém pareceu disposto a não entender. Porque é de uma filmografia respeitada e estimada.
O Brasil precisa ter menos preguiça com o Brasil. Temos um artista ousado e inconformado como Beto Brant, que apresenta produtos culturais de modo eficiente, mostrando para onde vai o dinheiro da população - o filme teve vários patrocinadores públicos. Só que ele não faz comédia televisiva com globais, faz dramas densos com eles, cujas tramas, em alguns casos, se passam onde o vento faz a curva. Parece que não fazemos o mínimo esforço de ver e aceitar um trabalho que, se fosse francês, romeno, americano independente, turco, todo mundo teria a maior paciência para compreender. Menos preguiça com o Brasil, elite do Brasil.

sábado, 27 de abril de 2013

Antonio Candido sobre Silvio Romero

Uma curta publicação sobre um grande escritor brasileiro falando sobre outro. Ensaio imperdível para os apaixonados por literatura brasileira como eu.

http://www.cdpb.org.br/silvio%20romero.pdf

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Permanência na impermanência

Pensei em vários temas para escrever, a maior parte políticos, mas vendo alguns sites sobre um ídolo meu percebi o como somos permanentes em constante estado de mutação. Nascemos imprecisão e morremos fundamento. Somos a cada dia o restante do começo.
No fundo, só temos aquilo que nos foi ensinado pela tradição ou pelos sentidos desde cedo e que cala em nós como um contínuo hoje sem morte. Vivemos pelo que está próximo, côncavo, acessível; o caminho mais conhecido de nós, não necessariamente tocando nossa real presença, mas habitando nossa eterna continuidade.
É nessa condição primitiva, nessa juventude da alma, a parte que nunca nos envelhece, tampouco se renova, porque sempre moça, onde moramos em essência, parados, girando na velocidade da grande mudança (?) dos dias da vida.
Estamos aqui e agora vivendo o ontem e antes de sempre, o eterno presente construído em algum ponto do passado. Permanência na impermanência.

domingo, 14 de abril de 2013

O Rio sem chuteiras

Millôr Fernandes, em sua verve deliciosa, disse uma vez que nós, mulheres, nos expressamos com "vaguidão inespecífica". Munida desse espírito impreciso, vou falar de um assunto que me interessa, embora eu tenha uma ideia muito vaga de seus meandros internos: futebol. Carioca. Pouca coisa, mas é preciso dizer.
O(A) torcedor(a) do Rio é obrigado (a) a assistir os paulistas ganhando quase tudo de uma década para cá, dentro e fora do país. À exceção do Fluminense e do Vasco (Copa do Brasil), não me recordo de outro time que tenha vitórias muito expressivas fora do Rio. O Estadual virou a Superliga para os quatro grandes, pela grande falta de profissionalismo da área. 
O futebol, como quase tudo na cidade do Rio de Janeiro, vive uma crise de identidade pela improbidade administrativa, antiética profissional e o orgulho fátuo que nos leva a crer que somos a cidade mais interessante do país. São Paulo já nos passou faz tempo, mas nos recusamos a ver o óbvio e com isso continuamos a descer a ladeira.
Minha bronca maior vai para o Roberto Dinamite, presidente que prometeu entrar no Vasco para promover uma "faxina" e, bem, deu no que deu. Precisamos acabar com essa mania de querer levar vantagem em tudo, "farinha pouca, meu pirão primeiro". Essa cultura está nos matando e acabou com uma das coisas que o Rio tem de melhor, o futebol, mero sintoma de um grave problema moral da cidade, em todos os campos.
Se continuar assim, com tanta má gestão, periga de, em pouco tempo, o Estadual ser o único lugar onde os times do Rio, os quatro grandes juntos, poderão se exibir grandiosos. Tem-se de se pensar para frente, adiante, mas, por enquanto, os dirigentes se comportam como quem quer dinamitar a galinha dos ovos de ouro.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Úmidos no universo expansivo do ahan

Por circunstâncias independentes da minha vontade, descobri algo que sempre é inerente à minha realidade: o apagamento de etapas, o ir-e-vir, o descolamento da sequência. Enquanto tantos pensam no de-vir, só quero o de-estar. Tentar ficar mais tempo por aqui de volta não será tarefa fácil: já pensava em novo blog: década virada, modelo novo, tal qual muitos senhores de meia-idade.
O susto maior depois da queda em si da distância criada entre sua consciência e o buraco negro de sua mente - onde se encontra, túrgido e úmido, enredado nas teias da web, este pequenino blog, foi sua frequência de visitações nos últimos anos: nada menos do que 802! Nenhum seguidor, muitos curiosos. Ahan.
O úmido universo da internet, uterino e interino, torna-se quente e eterno de forma avassaladora. Você se dá conta, mais cedo mais tarde, que desconhecidos em 3D te seguiram ou se interessaram muito mais por suas palavras do que o número de seus amigos em vida 2D. Para a contagem dos amigos devo precisar dispor de uma única mão. Como diz o título do meu outro blog, uma mão só.
O universo se expande em ahan.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Os anos 80 acabaram - Morreu Michael Jackson



Justo agora em que, a partir do que escrevi sobre Mickey Rourke, decidi fazer uma série sobre os anos 80, morre Michael Jackson. Sim, os anos 80 não só passaram, agora acabaram em definitivo. Nada mais oitentista que esse artista, até porque muitas das modas musicais do pop dessa época foram lançadas por ele, alguns hits eternos também, tais como Billie Jean. Lamento pelo gênio do Michael ter-se ido, era excelente cantor e às vezes compunha muito bem também. Para mim, tudo o que ele fez de relevante para a música se encerra com Thriller, o que já é coisa à beça.
Mas, tão logo o caixão desça ao túmulo, tenhamos a decência de separar o joio do trigo desta carreira brilhante. Thriller, por exemplo, é uma canção ruim, fora outras consideradas pérolas, igualmente medíocres. Até a Madonna teve canções melhores que a Melô dos Zumbis nesse período. Ainda assim, é hora de revisitar a obra de Michael Joseph Jackson e descobrir o que é bom, para perceber que, enquanto ele foi negro, musical e fenotipicamente, foi imbatível ( Isso o Stevie Wonder - que também começou bem criança, aos dez anos, cantando e sapateando - percebeu logo).
Rest in peace, Michael.