quinta-feira, 23 de abril de 2009

O leitor



Interessante como Hollywood tem feito uso, ultimamente, de romances da literatura contemporânea em língua alemã para seus filmes, caso de Coração de tinta e deste O leitor, baseado no livro de Bernhard Schlink. O leitor é um filme bonito, mas, me parece, muito mais pelo fato de mostrar nas telas um romance considerado incomum: o de uma mulher de 36 anos com um adolescente de 15. Normalmente o cinemão ou finge que este tipo de relação não existe - embora seja mais comum do que se admita -, ou a retrata de maneira velada ou jocosa, sem mostrar as implicações naturais desta que é uma relação amorosa como outra qualquer, com a condicionante da diferença de idade. A primeira parte do filme, que apresenta o curto romance de verão, me parece a melhor, pela maneira corajosa com que são mostradas cenas de nudez, sexo e relacionamento íntimo entre estes dois sem maneirismos ou julgamentos. A relação apenas caminha dentro de suas dificuldades naturais e assim segue até a separação, precipitada por Hannah, a protagonista.
Hannah e Michael, seu jovem amante, vão se encontrar novamente, de maneira indireta, no julgamento daquela, ex-oficial nazista acusada de genocídio. Evidentemente, a trama do livro foi construída a fim de fornecer uma imagem positiva de um ser humano frio e amargo, maltratado por seu passado recente, mas ainda assim capaz de recuperar, mesmo que em doses homeopáticas, a alegria ou algo próximo dela. Este é o retrato de Hannah, uma metáfora até óbvia da própria Alemanha pós-nazista. A questão é que não acredito que se tenha feito uma boa transisção entre s primeira parte do filme e esta segunda. Soou meio estranho, parece que faltou ligação entre as duas, porque, de repente, depois de tanto idílio amoroso, percebe-se que o filme é na verdade sobre isso: o sentimento de culpa de uma nação civilizada frente à ignomínia de sua verdadeira natureza, brutal e malévola. E também, funcionando como tema lateral, como pode-se deduzir já do título, uma prova de amor à literatura e à leitura. Depois que é presa, Hannah se entrega aos prazeres do ato de ler graças ao sempre apaixonado Michael, amante fiel mesmo à distância, que permanece cumprindo os protocolos de sua relação amorosa. A terceira parte do filme consiste neste retrato, e a volta da intimidade entre as duas personagens recupera parte do frescor mostrado no começo.
É um bom filme, mas podia ter sim ousado mais - não consigo em desfazer da sensação de que, este filme nas mãos de um diretor alemão, seria outra coisa - em especial se tivesse sido um desses sobreviventes do "milagre econômico alemão", como Wenders e Herzog. De qualquer forma, a direção é competente, a edição das cenas de sexo, em especial no começo do filme, muito boa, além da reconstituição de época por parte da direção de arte, com o sempre bom padrão hollywoodiano de qualidade. Todos sabem que Winslet ganhou o Oscar pelo papel, e é merecido, embora eu continue achando que ela estava bem melhor em Foi apenas um sonho. Ralph Fiennes apresenta um trabalho delicado e emocionante, ams a grande surpresa do filme é o jovem ator alemão David Kross (Michael), que não se deixa intimidar nem pela dificuldade de interpretar em língua estrangeira, tampouco em fazer cenas de extrema exposição física - com direito a nu frontal. Que esse rapaz tenha uma carreira tão ou mais brilhante que a de Daniel Brühl, o jovem ator alemão do momento, com quem inclusive já trabalhou.

Um comentário:

:: Fräulein :: disse...

Filme muito bonito mesmo. E ver o Bruno Ganz foi tudo, mesmo sendo um papel secundário, mas muito bem feito.
Ai ai, esses alemães... rs.