terça-feira, 21 de abril de 2009

Os filmes do Oscar: "Foi apenas um sonho" (Revolutionary road)



Ok, gente, sem enrolação mais, pois já passou tempo o bastante para pensar esses filmes. "Foi apenas um sonho" é um título ruim para "Revolutionary road", primeiro porque entrega um dos grandes segredos do filme, segundo porque evita o título original, que traduz a alma da película, já que a tal "Estrada da Revolução" é o lugar onde mora o casalzinho suburbano protagonista, vivido por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. O nome do lugar onde moram é uma metáfora para aquilo que eles pretendem fazer com suas entediantes vidas de moradores do subúrbio de uma grande cidade dos EUA: revolucioná-la.
A trama gira em torno de uma grande crise conjugal, que desencadeia um plano de fuga perfeito: uma temporada em Paris, vivendo todos das economias da família, até que o marido - que seria sustentado pela mulher, para escândalo de todos que ouvem os planos de viagem do jovem casal - pudesse encontrar a sua verdadeira vocação profissional. Este é o tal sonho fortemente acalentado por April, que tenta convencer seu marido a abandonar a vida que vivem, para tentarem algo novo na Europa junto com os filhos. Mas nem tudo sairá perfeito, como se pode perceber.
Sam Mendes é um diretor talentoso e inteligente, que está, ao que tudo indica, obstinado em dissecar a alma estadunidense - tal qual o tem feito Lars von Trier, outro estrangeiro, com sua trilogia ainda inacabada. Ao contrário do colega dinamarquês,o inglês prefere cutucar a ferida ali onde ela sempre irrompe, afinal: na célula-mater da sociedade, a família. Que todas as famílias tem sua neurose, todos sabemos, mas as famílias de Mendes são profundamente doentes, tal um símbolo da doença coletiva que parece nortear os valores deste povo do Norte. Suas personagens são perdedores debaixo da capa de vencedores, suas vidas são mentiras, e o menor esforço em direção à mudança será recalcado pela necessidade de cumprir o script do modelo pré-estabelecido pela sociedade. Os protagonistas de Mendes sucumbem como moscas diante da resistência que oferecem contra o muro de concreto das exigências sociais.
O roteiro é muito bom, a direção idem. Acompanha com interesse cínico e amargo a dissolução de uma família, e consequentemente, do sonho americano, lá onde ele era tão bem embalado: nos anos cinquenta. O cuidado se estende à direção de arte e à atuação do elenco, muito bem escolhido. Kate Winslet e Leonardo DiCaprio provam neste filme que boa parte do sucesso de Titanic deveu-se também à sintonia entre os dois, que estão perfeitos. Nunca vi DiCaprio tão consciente na tela, a ponto de comover; Winslet merecia ser indicada ao Oscar por esse papel, já que em O leitor ela parece repetir algumas soluções interpretativas usadas aqui.
Ainda asim, não é um filme fácil, é bem doloroso de se assistir. Mas me regozijei com a cena de sexo do casal, que foi uam lacuna de toda a geração que assistiu Titanic. Mas agora, onze anos depois, foi filmada exatamente da forma como pedia o enredo do filme: uma relação burocrática, sem grandes afetos, pura catarse. Pena esse filme corajoso não ter ganho nenhum prêmio no Oscar. Possivelmente não ganhou exatamente por causa disso.

Um comentário:

:: Fräulein :: disse...

Esse ainda não vi. Nem vou ler, rs.