sábado, 25 de abril de 2009

Rio congelado



Esse filme, da chamada indústria independente dos EUA, só vi por causa da minha obstinação em ver todos os filmes indicados ao Oscar que meu dinheiro permitisse. No caso, Rio congelado concorria a roteiro original e a melhor atriz, para Melissa Leo. O roteiro é interessante e uma bela crítica à sociedade de consumo americana. Uma mãe de família, mulher branca, abandonada pelo marido e precisando comprar uma nova casa para a família (além de evitar que os cobradores levem o que está dentro da velha) se alia a uma mãe índia para fazerem juntas tráfico de pessoas do Canadá para os EUA - as duas moram na fronteira dos dois países. Evidentemente, as pessoas trazidas aos EUA são chineses, paquistaneses, toda sorte de gente desvalida do mundo; mas resta saber, na comparação entre transportadores e transportados, quem está mais à deriva.
Mesmo que de modo sutil, o filme deixa claro que o sonho americano tem regras bem definidas e não é feito para todos. Destina-se a famílias brancas, cristãs e com dinheiro, e todas as etnias que compõem o país são bem-vindas desde que respeitando estritamente a zona de isolamento entre elas e os brancos. Por sua vez, as etnias que entram no país são importantes, posto que decisivas para a execução dos trabalhos de base da economia - o que não as torna, apesar de seu trabalho vital, mais aceitas. Os imigrantes são mão-de-obra barata e capaz de qualquer serviço sujo, ainda assim, embora sejam mais vítimas do que algozes, são tratados como seres humanos de segunda classe, verdadeiras ameaças à vida do cidadão comum estadunidense - o que é apresentado no filme através do insólito caso do bebê paquistanês. É justamente daí em diante, com o quiproquó dessa criança, que a antes pouco humanizada Ray, a mãe branca da história, percebe que está num barco de perdas e ganhos, e que ela não é nem melhor nem pior que os imigrantes, pelo contrário: percebendo sua vida, vê que, como cidadã estadunidense, mal consegue viver dignamente em seu próprio país, em um empobrecimento progressivo que a obriga ao crime, para manter o padrão de consumo alardeado como indispensável por todos os meios de comunicação - a televisão, no filme, pontua justamente isso.
Seria melhor para o próprio filme que tudo isso viesse com mais crueza, e há até mesmo momentos de redenção pessoal tão canhestros - a ressurreição do bebê e a cena final, com a chegada da casa nova - que estragam uma história que poderia refletir mais sobre a parcela de responsabilidade pelos atos dos EUA, e do ser humano de um modo geral, no contato com o diferente e com situações alheias a sua vontade. Ainda assim, as lindas imagens do rio congelado na fronteira EUA - Canadá e a atuação crua de Melissa Leo valem o filme. A diretora é uma promessa, vamos ver se ela nos oferece outros bons trabalhos.
Curiosidade: há uns dois meses assistia um episódio de CSI las Vegas no qual Melissa Leo fazia a mãe de America Ferrara (a Ugly Betty). Na época, as duas eram perfeitas desconhecidas. Como o mundo dá voltas em tão pouco tempo.

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