domingo, 28 de abril de 2013

O Brasil tem preguiça com o Brasil - Sobre "Eu receberia ..."

Ontem tive a grata surpresa e pachorra de me sentar no sofá da sala e assistir a (parte) de um filme que perdi no cinema: "Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios", de Beto Brant e Renato Ciasca. O filme é inspirado no romance homônimo de Marçal Aquino. Devo admitir que, como a pachorra não foi suficiente, não assisti a tudo - na verdade, achei que o filme duraria umas três horas e saí da sala. De repente, o filme acabou. Loucuras à parte, até onde vi, o filme é visualmente bonito, muito bem interpretado, escrito, editado, com muito sexo, como brasileiro gosta. Mas ...
Mas, na época em que passava no cinema, os comentários dos leitores do único jornal de grande circulação da segunda maior cidade do país reclamavam que o filme era confuso, que a história dizia nada, "saí no meio". Muitos falavam da edição. Com toda a honestidade, eu achei a edição menos complicada do que a do "Amnésia", do Cristopher Nolan e, se bobear, qualquer um dos três Batmans que ele dirigiu é mais imbricado em termos de montagem do que "Eu receberia...". Daí me resta aquela dúvida: o que leva o Brasil, ou a elite da segunda maior cidade do país, a não aceitar a inovação desse filme, sua temática rural, sua ousadia dramatúrgica etc?
No meu entendimento, fosse um filme estrangeiro, as pessoas teriam mais paciência. Fosse um francês, todos tentariam entender a proposta. Vi o último do Ozon, "Dentro de casa", e entendi a proposta: mimetizar filmicamente o efeito do impacto de um  romance em seu leitor, mostrar em cinema os mecanismos de construção da narrativa romanesca. Complexo, não? Mas isso vai na tela suave, de modo até conservador, burocrático. Apesar da simplicidade da encenação, você tem de parar para pensar nessas ideias e na função fílmica da personagem daquele professor tolo, enredado pela trama de romance que construiu dentro de sua vida. Mas, ao sair da sessão, ninguém pareceu disposto a não entender. Porque é de uma filmografia respeitada e estimada.
O Brasil precisa ter menos preguiça com o Brasil. Temos um artista ousado e inconformado como Beto Brant, que apresenta produtos culturais de modo eficiente, mostrando para onde vai o dinheiro da população - o filme teve vários patrocinadores públicos. Só que ele não faz comédia televisiva com globais, faz dramas densos com eles, cujas tramas, em alguns casos, se passam onde o vento faz a curva. Parece que não fazemos o mínimo esforço de ver e aceitar um trabalho que, se fosse francês, romeno, americano independente, turco, todo mundo teria a maior paciência para compreender. Menos preguiça com o Brasil, elite do Brasil.

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